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A escravidão do futuro

 

 

"Comerás o teu pão com o suor do teu rosto" (Gênesis, capítulo 3, versículo 19). Na verdade, o ser humano sempre preferiu comer o pão com o suor do rosto alheio e, ao longo da civilização humana, o trabalho duro sempre ficou a cargo das classes não privilegiadas. Por séculos a fio, coube aos escravos suarem o rosto pela abundância e conforto de seus senhores.

 

Na antiguidade a escravidão era determinada pelo nascimento ou pela fatalidade. Nascia-se escravo ou tornava-se escravo por derrota em guerras ou até por dívidas, quando os devedores, impossibilitados de pagarem seus débitos, entregavam-se como escravos com suas famílias a seus credores. Enfim, a escravidão era, no fundo, um arbítrio dos deuses.

 

Na Idade Média, além dos outros tipos de escravos, havia ainda os servos da gleba, cuja posse estava vinculada à terra em que viviam – se a terra mudasse de dono o novo dono recebia os servos junto com a terra adquirida.

 

Com o tempo, veio a escravidão dos filhos da África, trazidos às Américas para cultivar as terras do Novo Mundo. Veio a abolição nos Estados Unidos junto com a Guerra de Secessão e no Brasil a libertação dos escravos selou o fim do império. Na Arábia Saudita a escravidão acabou oficialmente em 1962 e ela ainda subsiste em partes da África, em pleno século XXI.

 

No apogeu do Império Romano usavam-se escravos para tudo. Nas fazendas eram essencialmente agricultores e nas cidades serviam para mostrar o tamanho da riqueza de seus donos. Havia desde escravos para os cuidados da casa até aqueles para banhar e vestir seus senhores, servir como garçons em festas, carregar liteiras e até dar aulas ou escrever, como nos casos dos escravos cultos, geralmente de origem grega.

 

No Brasil, havia escravos que eram espécies de profissionais autônomos, que prestavam serviços como jardineiros, marceneiros, chaveiros e sustentavam seus senhores com os ganhos de suas atividades profissionais. Enfim, usavam-se escravos para tudo e, até mesmo, para os prazeres do sexo, sem compromissos ou pecados.

 

Apesar de todo o horror da escravidão, ela se fez possível moralmente por um princípio simples e eficaz: o escravo era um ser inferior, por alguma vontade divina, que não cabia a seus donos julgar. Em Roma Antiga os escravos eram contabilizados junto com os equipamentos agrícolas, contados com arados , foices e outros artefatos. No Brasil eram comumente chamados de “peças”. Mas, apesar de toda essa aparente normalidade, a escravidão sempre foi uma nódoa na história da civilização humana – considerada necessária e repugnante, ao mesmo tempo.

 

Mas agora, com a quarta revolução industrial, estamos no alvorecer da mais limpa das escravidões – a escravidão das máquinas dotadas de inteligência artificial. Não haverá trabalho chato, perigoso ou que exija suor que elas não possam fazer no nosso lugar e com mais (muito mais) eficiência. Podemos ter robôs muito parecidos conosco, a quem poderemos programar para ter até sentimentos, mas jamais terão sentimentos genuinamente humanos. E, pela primeira vez na história, a humanidade vai se livrar do castigo divino: comerá sem precisar verter uma só gota de suor humano. Será o nirvana na Terra. Os sentimentos serão a nova linha de corte, o parâmetro a definir quem será livre ou escravo.

 

Se antes escravos carregavam seus senhores em liteiras, agora já temos carros que andam sozinhos e nos levarão onde quisermos, com total segurança, enquanto poderemos nos deliciar com nossos tablets ou celulares, muito mais poderosos e interessantes. Fazer compras? Carregar sacolas de plástico pesadas e incômodas? Nada disso, teremos drones que deixarão as compras onde quisermos, na hora que desejarmos. Cortar grama, dar comida ao cachorro? Não, não e não, nossos novos trabalhadores, sem vontades ou sentimentos, farão tudo isso, sem uma única reclamação e sem remuneração também. Tudo perfeitamente técnico, limpo e sem culpas.

 

Mas, pobre ser humano, sempre que se livra de um problema logo se depara com outro. Poderão estes novos escravos se rebelarem, como Spartacus na República Romana? Ou como Toussant de Bare no Haiti? Há quem pense que sim. Quem viu, por exemplo, o filme Blade Runner (o primeiro) deve lembrar-se que os replicantes eram usados como escravos na exploração de minérios em outros planetas. Revoltam-se, fogem e voltam à Terra para vingarem-se de seus criadores. Dispostos a tudo, até a matar, eram tão perigosos que precisavam ser caçados e exterminados.

 

O filósofo Nick Bostron, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, acredita que a superinteligência – uma evolução da inteligência artificial - será o pior perigo que a humanidade terá de enfrentar em breve. Enfim, restam-nos intrigantes questões: como faremos para que as máquinas inteligentes jamais se revoltem contra nós? Ou ainda: por quanto tempo poderemos nos servir em paz das máquinas inteligentes, sem sentir medo de que queiram nos exterminar?

 

Se você acha que estas questões pertencem a um futuro hipotético ou distante demais, é melhor estudar um pouco e rever seus conceitos. Vivemos um momento de transição para uma nova era histórica. Tais períodos são naturalmente confusos e o futuro não está claramente delineado, é verdade. O medo é compreensível e, como diz o sociólogo Sérgio Abranches: “ ... o que continua visível e real para nós é o mundo que se esvai e o novo mundo permanece ainda invisível, vivemos perplexos cada salto no processo de mudança”.

 

A Inteligência Artificial é “um salto no processo de mudança” e como tudo que o ser humano fez, faz e fará, tem seu lado bom e seu lado ruim. Temer a Inteligência Artificial é temer a própria inteligência humana. Antes de ficarmos pensando nos perigos de nossas invenções, valeria mais a pena pensarmos em nós mesmos, em como poderíamos nos tornar melhores, aprender com nossos próprios erros e buscar o bem e a felicidade. Um ser humano melhor fará coisas melhores, sem precisar temer suas criações.

 

Toda forma de escravidão é nojenta e todo escravo terá sempre o direito à revolta, seja ele humano ou apenas quase humano. O suor do rosto é mais digno do que qualquer forma de opressão.

 

Nilson é Sócio Diretor da Solução Sustentável

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