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Podemos aprender pelo amor ou pela dor; só não podemos deixar de aprender

09/02/2019

Introdução

 

Esse artigo foi construído a partir da colaboração de alguns profissionais, a quem agradeço penhoradamente.

 


Quando estava revisando o texto, recebi uma mensagem com um artigo de um engenheiro sobre tixotropia de areias (lembrei-me de ter estudado tixotropia de argilas na faculdade, de uma forma um tanto diferente da exposta em tal artigo), onde o articulista apresentava a mesma ideia central que defendo. A princípio pensei em desistir de publicar a minha versão, mas fui incentivado a ir em frente. Dessa forma, registro que compartilho da opinião do referido engenheiro, no que concerne à sistemática de tratamento de acidentes da indústria aeronáutica.

 

PODEMOS APRENDER PELO AMOR OU PELA DOR; SÓ NÃO PODEMOS DEIXAR DE APRENDER

 

Não é fácil aprender com a dor, mas aprender a salvar vidas é infinitamente melhor do que deixar o tempo se encarregar de manter tudo como sempre foi. A humanidade evolui quando o conhecimento se torna comum e melhora a vida de todos. Tem sido assim ao longo da história. Por isso, precisamos não apenas aprender, mas compartilhar o que aprendemos, incorporando a ciência à prática.

 

O Brasil e o mundo precisam de minério de ferro. Mas não podemos permitir mais que barragens de rejeitos de minérios reduzam o sonho de tantas pessoas apenas à vontade de dizer adeus aos que se foram, vítimas de tragédias que podem ser evitadas. Por tudo isso, precisamos unir forças para impedir que velhos erros causem novas catástrofes. E, assim sendo, precisamos refletir profundamente sobre o que os acidentes aéreos e as tragédias do rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho poderiam ter em comum.

 

Nem sempre as coisas são como parecem. Com os acidentes pode acontecer o mesmo. Acidentes graves, que interrompem histórias de vidas, merecem uma investigação rigorosa. Precisamos aprender com os resultados dessas investigações como impedir que tais acidentes aconteçam novamente.

 

Quem nunca ouviu falar do acidente do dirigível Hindenburg, conhecido como Zeppelin. Esse dirigível alemão, que até os dias atuais detém o título de a maior nave a voar, foi um ícone da indústria alemã. O dirigível era inflado com hidrogênio, ao invés de hélio, principalmente devido ao preço, visto que o primeiro gás era mais barato. Durante as manobras para pouso no campo da base naval de Lakehurst, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, em 06 de maio de 1937, um incêndio tomou conta do dirigível e o saldo de mortos foi de 13 passageiros , 22 tripulantes e um técnico de solo, totalizando 36 pessoas.

 

Como o gás de hidrogênio é altamente inflamável ele foi inicialmente responsabilizado pelo enorme incêndio que tomou conta da aeronave. Logo após o evento, o governo alemão também sugeriu a possibilidade de uma sabotagem para derrubar o grandioso Zeppelin, representante da superioridade tecnológica daquele país. Ambas as afirmações revelaram-se incorretas após as investigações.

 

A comissão americana, que investigou o acidente junto com o fabricante, atribuiu falha humana ao ocorrido. Uma brusca manobra, momentos antes do pouso, teria causado o rompimento de um dos tanques de hidrogênio e uma faísca dera início ao incêndio.

 

Investigações posteriores, mais detalhadas, realmente atrelaram a origem das chamas a faíscas elétricas que se desencadearam ao se lançarem as amarras ao solo no processo de pouso, geradas pela descarga de energia eletrostática acumulada no dirigível. Contudo, atribuíram à estrutura do balão, construída com um tecido de algodão impermeabilizado com acetato de celulose e recoberta com pó aglutinado de alumínio (a fim de conferir-lhe uma cor prateada) a culpa pelo incêndio e sua propagação rápida, e não ao hidrogênio.

 

Como nos mostram inúmeras investigações, um grande acidente nunca é resultado de uma única causa – embora se possa chegar à causa-raiz-, mas de uma combinação de fatores, que concorrem para desencadear o evento e potencializar sua gravidade.

 

Mas qual a relação entre os acidentes aéreos e os eventos ocorridos no Brasil com o rompimento das barragens em Mariana e Brumadinho? Como se tratam de acidentes traumáticos, necessitam de investigações rigorosas e demoradas. No entanto, no caso de acidentes aeronáuticos as lições aprendidas são compartilhadas e alteram-se projetos, incorporando-se medidas de segurança, que todos os fabricantes de aeronaves passam a incorporar. Isso não costuma ser uma prática de outros setores produtivos de alto risco, como, por exemplo, os de mineração e siderurgia, entre outros.

 

A aviação civil é muito bem regulamentada. A Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO, sigla em Inglês), uma agência especializada das ONU, foi estabelecida em 1944 visando à governança da Convenção Internacional da Aviação Civil. A ICAO trabalha com os 192 estados membros da ONU e grupos da indústria para obter o consenso sobre protocolos da aviação civil internacional. Ela também recomenda práticas e políticas para suporte à segurança, responsabilidade ambiental e sustentabilidade econômica do setor de aviação civil.

 

Precisamos replicar esse modelo de sucesso para outros setores da indústria, onde a magnitude dos riscos exija e justifique ações coordenadas de controle e o compartilhamento de medidas de prevenção, que possam ser adotadas por todas as empresas e controladas de forma responsável e continuada.

 

As associações setoriais, nacionais e internacionais, deveriam deixar de lado as questões políticas, comerciais, de natureza estratégica de cada empresa e olhar para a segurança como uma prioridade absoluta. Não há competição em jogo quando se trata de segurança de vidas e do meio ambiente – geralmente indissociáveis. Se pudermos aprender uns com os outros e buscarmos juntos as melhores soluções, todos seremos vencedores. É isso o que faz a indústria aeronáutica.

 

Ao final, sabemos que as tragédias terão culpados, mas acusar e julgar sem a análise detalhada de fatos e dados não contribui para a identificação das causas reais e nem para evitar novos acidentes. E não se tem o direito de errar uma vez mais com esse tipo de acidente com barragens de rejeitos de mineração.

 

Replicar o modelo da aviação civil em setores de alto risco, através de suas entidades ou associações de classe, parece ser uma iniciativa extremamente razoável. Isso permitiria que as causas dos acidentes fossem estudadas e compartilhadas com maior profundidade. As medidas de segurança identificadas poderiam, então, ser utilizadas em todas as empresas de um mesmo setor. Os protocolos seriam revisados de comum acordo, sem impacto nas relações comerciais ou nas responsabilidades legais.

 

Um comitê de governança setorial, tal como existe para a indústria da aviação, integrado por representantes dos poderes públicos, por especialistas da academia e da indústria e pela sociedade civil, poderia viabilizar a implementação da ideia, conferindo transparência, isenção e eficiência na gestão de acidentes, como os que passamos com as barragens de Mariana e Brumadinho.

 

Por que não trilhar esse caminho? O que nos impede de replicar um modelo eficaz e mostrar que podemos aprender com os erros e evitar que se repitam? É só ter vontade e transformá-la em ação.

 

Podemos aprender pelo amor ou pela dor; só não podemos deixar de aprender.

 

Nilson Gonçalves Baptista

Consultor de sustentabilidade e pesquisador da Cátedra Ignacy Sachs, da PUC-SP.

 

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